Entries from December 2016 ↓

O dilema da autonomia

Sorry, but I Kant...

Sorry, but I Kant…

A galera kantiana segue a ideia de que liberdade precisa de racionalidade. Ou seja, gente burra não é livre. Quem cede aos desejos com facilidade ou não calcula os meios mais apropriados a seus fins não é considerado livre por eles. Me vem uma imagem de um sujeito muito diligente e observador dos seus deveres como o mais livre. Também me vem a mente a implicação de que não importa a posição de alguém na sociedade para considerá-lo livre. Logo quem tem mais poderes e privilégios não é necessariamente mais livre que aquele na base da pirâmide. Muito estranho isso.

Podem, portanto, mandar o argumento da Espada de Dâmocles para defender que a irresponsabilidade para com os poderes traz graves consequências. Um rei seria então até menos livre do que um plebeu – ou talvez tão livre quanto, pois a razão entre responsabilidade e consequência se mantém apesar das proporções maiores. Tremenda demagogia, pois a Espada de Dâmocles não está sobre a cabeça do rei, mas sobre a dos súditos. Quando a cabeça do rei cai, não é a dele a primeira cabeça que rolou. Pode parecer apenas o problema da proporção, mas a cabeça do rei não rola tão fácil assim. Há muito mais coisas nessa proporcionalidade, especificamente a proporcionalidade do poder. Pobre não tem forças armadas ao seu dispor, mas o rei, sim.

É curioso como essa visão liberal da liberdade é semelhante à visão religiosa. O homem é realmente livre enquanto age dentro da vontade do deus e como o deus é a fonte da razão, o homem livre é o homem racional. Preciso dizer que Kant tentou, com sua Filosofia Transcendental, sintonizar o espírito do iluminismo com Deus para nos “salvar” do ateísmo? Tá lá no prefácio da segunda edição da Crítica da Razão Pura.

Quando a militância mainstream agrava a desigualdade.

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Lula tá dizendo que Lava Jato supera Minority Report e Kafka (depois dizem que o cara não lê…). PTistas, Dilmistas e social-democratas em geral estão indignados com a parcialidade e as irregularidades da justiça. Acontece que quando isso rola com os de baixo, e isso rola o tempo todo, os militantes da social-democracia não querem nem se meter a defender os pequenos porque eles são justamente… pequenos. A desculpa de sempre é que eles querem focar no grande e não desperdiçar esforço no resto. Tudo de que se queixam se suceder com Lula já aconteceu e ainda acontece com militantes e ativistas políticos de correntes menosprezadas por eles. Acontece também com os pobres em geral. O grande problema é que se só vale a pena lutar pelos figurões em vez dos pequenos, eles estão fazendo da desigualdade regra. Em vez de lutarem por igualdade política, estão justamente perpetuando o privilégio do grande sobre o pequeno, do rico sobre o pobre, do “importante” sobre o “descartável”.

Vale lembrar que em 2014 no Rio Grande do Sul, durante o governo de Tarso Genro do PT, lideranças indígenas do povo Kaingang foram chamadas para uma reunião em Faxinalzinho com o governo sobre demarcação de terras, porém a reunião foi uma emboscada na qual cinco dos indígenas foram presos e acusados de envolvimento na morte  de Olices Stefani, ex-presidente do sindicato rural de Abelardo Luz. De acordo com Roberto Liebgott do Conselho Indigenista Missionário, eles foram presos não por envolvimento na morte, mas por serem da liderança do movimento indígena local por demarcação, de forma a criminalizar o movimento.

Vemos então que o PT realmente foca no grande. Quando é para defender, defendem seu próprio figurão, mas procuram invisibilizar os pequenos que sofrem do mesmo que eles se queixam. Quando atacam, usam das mesmas táticas dos inimigos, pulando em cima das lideranças dos indígenas para tentar quebrar o movimento como um todo. Sabem quando eles ligam para os pequenos? Quando estes estão de acordo com os termos deles, com eles no poder. De outra forma, para eles, não pode ser.

A luta revolucionária é legítima defesa

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Tanto os mais pobres como os mais ricos são movidos por senso de autopreservação. A base exige igualdade porque está em posição de desvantagem, enquanto a elite defende a desigualdade porque não quer perder o que tem. Só que a base está numa luta por sobrevivência e dignidade e a elite sobreviveria muito bem apenas com uma parcela do que hoje tem.

Mas tudo bem. Não há céu ou inferno. Não há uma moral objetiva no universo. Se você não tem compaixão pelos outros, em princípio, não vai perder nada sendo um escroto – em princípio! Embora não exista uma moral objetiva, interesse pessoal e solidariedade ainda existem. Eu acredito que, mesmo sem uma lei moral regendo o universo, ainda há uma ética que guia as relações interpessoais de acordo com a quantidade de bem que se possa gerar (ou de sofrimento que se possa diminuir). A partir disso, podemos pensar numa comunidade ética, ou seja, pessoas unidas por laços de interesse mútuo pelo bem-estar. Eu quero ser feliz e não quero ver você infeliz. Você tem a mesma postura. Logo nós  respeitamos e ajudamos um ao outro. É certo que tendemos a priorizar aqueles com os quais temos laços pessoais, mas buscamos incluir toda humanidade na medida do possível. Continue reading →

Anarquismo precisa de organização

Cada dia fico mais convencido da necessidade de organização no movimento anarquista. E quando falo de organização, falo realmente de administrar, de delegar funções, de sistematizar atividades e definir expectativas. Não só como um meio de ação, mas também como um fim, como a realidade que queremos construir. Digo isso porque há muitos anarquistas que acreditam que basta colocar por terra tudo que está aí de errado para que a  perfeição brote naturalmente. Não é bem assim. Primeiro, temos de demonstrar ao povo que oferecemos algo concreto. Segundo, o universo não funciona em benefício do ser humano e deixar as coisas acontecerem é pedir para ser varrido da existência. Um anarquismo de anomia, de puro individualismo e de espontaneidades momentâneas seria varrido da existência em pouco tempo.

Resposta ao texto da Insurgência/PSOL sobre Black Bloc

O texto em questão é “A tática Black Blocs é capaz de parar a PEC 55/241?” da Insurgência (PSOL). Não vou linkar, então taquem no Google/Duck Duck Go.

Black bloc afasta as mulheres? Acho que o autor nunca viu um black bloc de perto. O número de mulheres que participam é praticamente metade! Ou será que o autor atribui às mulheres um caráter estereotipado de anti-combatividade?

Que tal parar vocês de fetichizar o black bloc? Até parece que foi o black bloc que inventou o revide popular à altura da violência estatal. E quantos outros grupos usam panos na cara, mesmo quando exigem que os do black bloc tirem os seus? Ninguém chama MST e MTST de mascarados, embora eles usem máscaras. Mas sempre que alguém com camisa na cara revida a polícia, ele automaticamente é denominado black bloc. Ou seja, é uma oposição ao black bloc ou à revolta popular contra a bota que pisa no povo?

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