Porque eu defendo que Anarquismo é de esquerda

Mensagem do autor: apesar dos vários outros textos no blog, textos que considero mais importantes, esse aqui tem visitação quase diária graças ao status que alcançou de lenha para treta de Facebook, enquanto os outros são ignorados. Dado o desvio que ele causou no foco das discussões, seria melhor que eu nunca o tivesse escrito. Há coisas mais importantes para a promoção da autonomia popular do que debates teóricos de conceitos históricos, principalmente quando tais debates só existem para um anarquista de internet tentar provar que é mais anarquista que outro anarquista de internet, independente de você discordar ou concordar com o que digo. 16/03/2018

Esses revolucionários franceses sabiam mesmo se divertir! Pena que chegavam a perder a cabeça...

Esses revolucionários franceses sabiam mesmo se divertir! Pena que chegavam a perder a cabeça…

Esse post vai bater de frente com a primeira postagem que eu fiz nesse blog (tecnicamente, a segunda). Mais à frente eu amarro essas pontas.

É comum hoje que pessoas digam que Anarquismo não é de esquerda e nem de direita. Eu já considerei tal possibilidade enquanto ninguém me dava bons motivos para pensar algo diferente. Mas cheguei à minha própria conclusão e vou responder aqui rapidamente porque eu digo que Anarquismo é de esquerda.

O Anarquismo se consolidou no movimento trabalhista posterior à Revolução Industrial, nas mesmas organizações onde se desenvolveriam outras correntes da esquerda. Foi aí que conceitos de intelectuais ganharam materialidade enquanto movimento sociopolítico. A partir de sua consolidação, os anarquistas atuaram em sindicatos, através do chamado sindicalismo revolucionário, no qual embora promovesse-se o Anarquismo, não se rechaçasse os trabalhadores que pertencessem a outras correntes socialistas. Impor purismo apenas afastaria os trabalhadores, justamente aqueles por quem os anarquistas lutavam nesse contexto.

Quando promoveu-se a busca pelo socialismo através da eleição, isso foi um desvio à direita. Quando se promoveu o vanguardismo, isso foi um desvio à direita. Quando se suprimiu os conselhos locais, isso foi um desvio à direita. Quando se defendeu que um órgão cuja função é a manutenção da opressão promovesse a igualdade, isso foi um desvio à direita. Quando se defendeu a permanência da propriedade privada, isso foi um desvio à direita. Quando anarquistas dizem que Anarquismo não é de esquerda porque não querem se parecer com o que é chamado comumente de esquerda, estão simplesmente entregando terreno que deveria ser reafirmado por eles. Se tem algo que é esquerdista por excelência, esse é o Anarquismo. Para mim, seria muito mais fácil dizer que só o Anarquismo é verdadeiramente de esquerda do que abdicar do termo em favor dos outros só por força do uso casual do termo, mas ambas as coisas seriam incorretas.

Quando eu questionei se a dicotomia esquerda-direita deveria ser abandonada de vez, não estava só pensando no Anarquismo enquanto não-esquerda. Questionei se um espectro dicotômico não seria simplório demais para os desenvolvimentos que ocorreram entre as correntes políticas. Não quero mais pensar nisso porque tal questionamento veio de uma expectativa minha por uma rigidez nos conceitos que não se presta à boa comunicação. Sim, a flexibilidade dos conceitos traz o risco da ambiguidade, mas é dever do bom comunicador tanto determinar quanto reconhecer contextos de forma clara. Qualquer ideia só faz sentido dentro de um contexto bem compreendido. Do contrário, dois interlocutores estarão falando de duas coisas completamente diferentes, embora usando as mesmas palavras.

Assim sendo, o contexto dos movimentos políticos nos quais seus conceitos ganham vida e materialidade é histórico. Não estamos falando simplesmente de palavras e seus significados num dicionário, mas do porquê de certas ideias e práticas serem do jeito que são. E se nós definimos esquerda como os movimentos políticos que buscam igualdade entre pessoas enquanto membros de uma coletividade, através de rupturas com estruturas econômicas que promovem uma hierarquização das relações sociais e que tais pautas têm como principais interessados e agentes a classe trabalhadora, então o Anarquismo é parte disso e basta ver os fatos até hoje.

Porém alguém poderia defender que a esquerda se tornou, com o passar do tempo, algo muito diferente do que era e do que o Anarquismo defende. Dessa forma, o Anarquismo, embora originado na esquerda, deveria romper com tal classificação. Eu compreendo tal ponto de vista. Já que o significado de esquerda na mente das pessoas mudou com o tempo, deveríamos encarar tal fato. Mas eu discordo por motivos que já expliquei acima. Acredito que a palavra esquerda ainda signifique o conceito que descrevi e o anarquista deveria fincar o pé no território que é seu por direito. Por quê? Porque as correntes de esquerda com mais proeminência se mantém proeminentes não por meios da esquerda, mas justamente adotando práticas da direita. Quando um partido trabalhista adota políticas liberais, ele não está re-significando a esquerda, mas apagando as diferenças entre ele e a direita! Portanto, não faz sentido dar de mão beijada o título de esquerda para quem se torna cada vez mais direita! Mas eu serei obrigado a concordar com quem diga que se chegar o dia em que ninguém mais lembre da esquerda enquanto aquilo que uma vez ela significou, então fincar o pé nesse terreno será anacronismo. Só que não sei se fará muito sentido falar em Anarquismo então.

Assim como pode chegar o dia em que esquerda significará algo completamente diferente, não vejo motivo em me prender ao uso do termo na época da Revolução Francesa. Eu não tenho ideia se já na Revolução o termo se tornou um conceito ou mera referência aos assentos dos Jacobinos na Convenção Nacional. A Revolução Francesa era de caráter republicano e liberal e tem quem diga que por isso o Anarquismo não é de esquerda. Porém esse momento é apenas o surgimento dos conceitos de esquerda e direita. Os movimentos que defenderam a igualdade em nome da classe trabalhadora tiveram daí em diante um desenvolvimento que, em sua história, incluiu o Anarquismo e eu não acredito que tais desenvolvimentos tenham chegado a um ponto em que o Anarquismo não caiba mais (ou seja, o dia em que o socialismo revolucionário e que busca o fim da sociedade de classes e a propriedade privada seja esquecido), principalmente se a esquerda se tornar direita, pois ela vai simplesmente sumir e não virar outra coisa (a não ser direita). Se o Anarquismo continuar Anarquismo então apesar da debandada ou extinção das outras correntes, aí ele sozinho deverá ser chamado de esquerda, se alguém ainda usar esse nome.

Ps: Lembremos que, na Revolução Francesa, a busca pelo liberalismo era uma luta pela igualdade diante do feudalismo assim como posteriormente a luta era pelo socialismo diante do liberalismo, que se mostrou apenas mais uma forma de manutenção da hierarquia socioeconômica. Pedir que a Revolução Francesa fosse socialista é pedir uma impossibilidade temporal, mas é muito natural que dali para frente os radicais se voltassem para as correntes socialistas que iriam se desenvolver.

Ps2: Leiam Rudof Rocker e vejam como muita gente acreditou que Lenin seria uma espécie de “novo Bakunin” assim que os bolcheviques tomaram o poder. Só que deu merda logo em seguida. Como tal equívoco seria possível se o Anarquismo não fosse de esquerda? Pode-se defender que os anarquistas só se fodem nas mãos do resto da esquerda, mas é mais correto dizer que somos a ovelha negra da família do que negar o parentesco.

Notas de atualização (04/12/2017):
1: A Revolução Francesa pautou a república liberal. Se, por isso, o anarquismo não pode ser de esquerda, então os comunistas também não podem ser considerados de esquerda. Se o que define um termo é seu momento de origem, então nada que fuja ao liberalismo pode ser considerado de esquerda. E o que isso significaria para o anarquismo senão rejeitar todos os exemplos clássicos a não ser William Godwin, dada a diferença de posicionamento?

2: Se os anarquistas devem abandonar o rótulo de “esquerda” em vez de reivindicá-lo ao atribuir-lhe um significado que a maioria das pessoas nem se lembra mais dada a constante deturpação feita por uma esquerda institucional oportunista, então deveríamos abrir mão também dos termos “libertário” e “anarco-comunista”. “Libertário” foi, com sucesso, roubado pelos ultraliberais, de forma que o ouvinte casual associa o termo mais facilmente a Ayn Rand e Murray Rothbard do que com anarquismo. E qualquer termo que contenha a palavra “comunista” remete, na maioria das vezes, a Marx e União Soviética. Wayne Price recomenda inclusive não usar a palavra “comunismo” onde as conotações forem por demais negativas, preferindo o termo “anarco-socialistas” a “anarco-comunistas” por como é compreendido nos EUA . Pior ainda, há uma quantidade não desprezível de militantes e ativistas que recomendam, ao fazer trabalho de base, nem mesmo citar a palavra “anarquismo”, por medo de espantar a população geral, demonstrando na prática o que eu disse no texto. No dia-a-dia, porém, as pessoas parecem usar os termos que melhor lhes parecer convir, independente da linha de discurso que defenda.

1 comment so far ↓

#1 Nathan on 10.12.17 at 15:15

[Colando aqui o mesmo comentário que fiz para o post do Anarcomiguxos VI no Facebook]
A ideia tratada no artigo é boa no contexto atual, ainda que insuficiente. Na minha particular opinião, a diferenciação “esquerda vs. direita” tem que cair por terra, pois foi criação de elites políticas em sua retórica ideológica, usando de um detalhe sutil da Revolução Francesa, oportunamente, como álibi e máscara conceitual, para fazer o público subordinado nas hierarquias das sociedades a creditar na aparente ordem da dualidade. Eles inverteram uma base existencial e até neurológica, difundiram isso no mundo inteiro, e pavimentaram as ideologias de acordo com as falácias desse discurso divisório.
Jacobinos e sans-cullotes ocupavam a esquerda da assembleia, girondinos a direita…porém, os que estavam na esquerda eram pessoas de um perfil psicológico pautado pela predominância da atividade do lado direito do cérebro, e os que estavam na direita tinham um pensamento mais pautado pelo lado esquerdo do cérebro… E isso não deu n’outra: girondinos e seus apoiadores, seus descendentes, e sociedades aderentes pelo mundo, usaram a configuração da assembleia como artificio discursivo perfeito para fazerem suas agendas perversamente prosperarem, e desviaram o foco dos fatores neuro-psicológicos em jogo. Eles praticamente resignificaram (adulteraram) o conceito correto da (verdadeira) diferença entre esquerda e direita, e ainda usaram das narrativas bíblicas semitas para se erguerem à condição moralmente virtuosa da “direita” mais simbólica. Isso deu origem a toda espécie de desordens e lutas político-econômicas que vêm bagunçando as civilizações dos dias de hoje.
As bases da narrativa de literaturas bíblicas semitas para a diferenciação entre os dois lados é bem diferente desta que está vigorando nas ideologias (e conflitos) políticos. Ela é mais de acordo com os fatos bio-neurológicos e psicológicos, e senão diametralmente inversa, de fato.
Para mim, a única solução é boicotar essa diferenciação “esquerda vs. deita” que está arraigada na mentalidade coletiva tanto das classes altas quanto mais baixas (como, por exemplos, dos “pobres de direita” e etc…), pois trata-se de uma falácia vinda de uma adulteração proposital com intenções perversas de grupos dominantes.

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