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“É isso que dá se misturar com a esquerda!”

Posted on Thursday, October 19, 2017 in Sem categoria

 


Agora que vem à tona novamente o caráter traiçoeiro do MEPR e da RECC, me parece haver uma dúvida mais ou menos difundida sobre o porquê de anarquistas insistindo em agir ao lado de correntes socialistas divergentes, principalmente sendo amplamente conhecido o padrão histórico de sabotagens. Tentarei aqui esclarecer a questão.

Não é necessariamente uma crença de que as diversas correntes precisam se unir, mas o fato de que uma determinada categoria na qual os anarquistas militam ou pretende militar, seja estudantil, operária, servidores públicos, mulheres, camponeses, negros, o que for, já contém pessoas de outras correntes e elas são livres para se associar. No caso do Ocupa Bandejão UERJ, como os anarquistas poderiam fazer parte sem estarem juntos aos maoístas que também são estudantes? Alguém recomendaria que eles fossem barrados como barraram a ADEP? Talvez depois desse episódio, os estudantes unidos poderiam aprovar em assembleia que eles fossem banidos, mas isso deveria partir dos estudantes unidos e não por disputas vanguardistas.

Digamos que os anarquistas tenham um certa inserção em uma categoria profissional, ou seja, que alguns desses trabalhadores sejam anarquistas e queiram fazer trabalho de base entre os colegas. Porém já existe lá uma união ou sindicato não-anarquista, com vários trabalhadores associados. Você é um dos anarquistas. O que você faria? Buscaria excluir os colegas sindicalizados?  Se houvesse um piquete, você se negaria a participar pela presença desses colegas? Você tentaria sabotar as ações por não serem ideologicamente puras para você?

A ADEP também não é um grupo anarquista, mas um projeto de extensão da UERJ para a inclusão da população das favelas do entorno à universidade, primeiramente através de pré-vestibular no qual os alunos são convidados a participar ativamente na organização. O grupo busca quem esteja disposto a dar aulas e o requisito é saber passar o conteúdo necessário e estar disposto a trabalhar através da autogestão, respeitando o princípio de igualdade e não-opressão. Não é obrigatório ser anarquista para participar. A esperança é que os princípios anarquistas sejam transmitidos no processo. Mas isso não quer dizer que propostas para coisas como “sarau em honra ao nascimento do Grande Camarada Mao”  ou “Roda de ciranda com Marcelo Freixo” sejam válidas.  (Sim, eu escrevi Mao e Marcelo Freixo na mesma frase…)

Creio que quanto mais trabalho de base o anarquista realiza, mas ele se torna ciente disso. Mas isso de forma nenhuma explica, muito menos justifica, ações que alguns anarquistas vêm realizando, que vão de equivocadas a oportunistas. Associação a outros grupos que vão contra os princípios anarquistas deveria ser obviamente inaceitável, mas há indivíduos ou grupos que acham que, para se preparar omeletes, ovos devem ser quebrados. Isso é um pensamento utilitarista que compensa o descarte de indivíduos com a mera possibilidade de ganhos políticos coletivos. Isso é uma desproporção e uma despersonalização dos sujeitos, que são reduzidos a números em vez de pessoas que lutam por almejar experimentar os resultados dessa luta.

Não é aceitável fazer concessões a outras correntes através da transformações de companheiros em bois de piranha. Não é aceitável arrotar a necessidade de unidade ideológica enquanto coletivo anarquista, mas proteger erros graves dos membros de outras correntes em nome da manutenção dos elos de articulação firmados por meio da atuação por círculos concêntricos. No primeiro caso, é preciso aceitar ser descartável logo ao ingressar. No segundo, tem-se a ingrata surpresa, no momento mais crítico, que a sua segurança, nem a de ninguém fora da cúpula, é garantida.

Eu gostaria que fosse explicitada a ligação entre RECC e UNIPA, pois o primeiro é um grupo sem recorte ideológico além de traiçoeiro, já o segundo é uma organização anarquista. Havendo ligação, a UNIPA tem obrigação de se posicionar. Ao contrário do que alguns companheiros pregam, não creio que tais conflitos internos ao anarquismo devam ser resolvidos da forma mais privada possível com medo de enfraquecer ainda mais a aceitação e a inserção do anarquismo. As pessoas que chegam agora têm todo direito de saberem onde estão se metendo. Se a segurança delas é comprometida, elas precisam ter noção disso. Mesmo que seja apenas uma questão de divergência entre o que o “neófito” crê aceitável, ele merece saber no que está adentrando. Eu estou resistindo à tentação de aproveitar esse gancho para fazer críticas a outras organizações, mas acho que o contexto agora não pede. Abordarei isso caso a oportunidade surja.

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