Slavoj Žižek: o Bannon da esquerda ou Trumpismo light?

Original aqui.
por Alexander Reid Ross,
traduzido por Cris Oliveira

"Não admira Spencer chamar Žižek de seu esquerdista favorito."

“Não admira Spencer chamar Žižek de seu esquerdista favorito.”

O artigo de Slavoj Žižek no Independent ultrapassa seus  trabalhos anteriores no fracasso audacioso e por vezes chocante em compreender até mesmo os mais básicos dos problemas na vida política da esquerda dos EUA. Explicarei a posição dele primeiro, em seguida a de um defensor e, finalmente, minha própria análise.

O curto artigo de Žižek pode ser encurtado ainda mais se cortarmos suas piadinhas toscas e recursos retóricos. Em efeito, ele insiste que a luta de classes é o motor por trás da política americana de hoje, conforme provado pelo sucesso populista do Partido Republicano nas eleições do ano passado. Ele então insiste que as oposições entre partidos se situam em linhas não-classistas, enquanto a luta de classes acontece no interior de cada um dos partidos  que se opõem: por exemplo, os apoiadores de Sanders no Partido Democrata e a ala de Bannon no Partido Republicano. A sugestão de Žižek, então, é para a ala de Sanders se esforçar para cooptar os apoiadores de Bannon num movimento transversal e anti-capitalista.

O defensor dessa abordagem insiste que Žižek não está completamente errado nisso. A manchete carece de nuance, já que ele não chama claramente por uma aliança vermelha-marrom entre “apoiadores de Trump da alt-right” e a esquerda. Faz sentido, afinal, que socialistas democráticos e comunistas se esforcem para ganhar os corações e mentes dos “nacionalistas econômicos” cativados pela reivindicação de Bannon por um imposto de renda de 40% sobre os ricos e desmonte do livre mercado? Se a esquerda não trabalhar para esses objetivos pelo menos, ela será simplesmente a “perdedora”.

No entanto há problemas inquietantes que Žižek evita totalmente. Volte ao artigo de Žižek e dê Ctrl+F em “raça”. Não, não há. No que parece um péssimo panfleto estratégico para um pequeno coletivo Marxista-Leninista competindo por hegemonia sobre uma outra Frente Popular, Žižek completamente evita essa distração de palavrinha e tudo que designa a vida política nos EUA. Parabéns, você destrancou a Caixa de Pandora.

Enquanto o famoso adágio de Horkheimer, “Quem não estiver preparado para falar sobre capitalismo deve manter-se calado também sobre fascismo”, é verdadeiro; aqueles que não estão preparados para falar sobre raça, não deveriam pronunciar uma só palavra sobre os Estados Unidos da América. Racismo sempre foi a lógica subjacente unificadora do desenvolvimento nacional dos EUA, para não mencionar da campanha de Trump. A plataforma nacionalista econômica de Bannon dentro da campanha de Trump sempre teve um papel importante, mas a forma irônica como o bilionário conjurou os poderes retóricos do anti-capitalismo não teriam feito a campanha tão convincente sem a intransigência anti-imigrante, anti-islâmica, anti-LGBQTI e “pró-branca”, com suas alusões notórias ao fascismo (lembre-se de Trump tuitando sobre “Il Duce”, por exemplo).

A suposição de que Bannon sinceramente acredita que seu programa econômico não seja apenas um provocador trabalhando para pastorear a direita radical e fascista para dentro do eleitorado do Partido Republicano é cercada de implicações problemáticas. Primeiramente, ele é um tradicionalista com T maiúsculo, um reacionário católico influenciado por Julius Evola e Aleksandr Dugin cujo site é financiado pelo bilionário reacionário Mercers. Ele avidamente ajudou Milo Yiannopoulos a promover os mais elitistas neo-feudalistas em meio à fascista Alt-Right. Com isso em mente, sua plataforma “anti-capitalista” é comparável com a noção fascista de “revolução nacional” – um esforço para erradicar a “corrupção liberal” dentro da democracia representativa e produzir uma “terceira via” populista que tentaria galvanizar o apoio da classe trabalhadora à classe governante através de lealdades ultranacionalistas e promessas vazias de mudanças econômicas vindas de cima.

Apesar de um tanto fora de tópico, Žižek também falha em reconhecer uma coalizão internacional autoritária e conservativa que ajudou a levar a Trump um ar de credibilidade e agiu por dentro da sociedade americana, particularmente através da mídia social, para conduzir polaridades políticas a uma luta unificada, apesar de conflituosa, contra a democracia liberal. Se Žižek  reconhece ou não que ele mesmo participa da mesma lógica problemática de, por exemplo, Dugin, Reshetniknov e Sarkov, ele certamente repete como papagaio alguns dos tópicos típicos que alguém esperaria desse clã e seus apologetas da falsa esquerda – por exemplo, Caitlin Johnstone, que reivindica uma aliança com o provocador do pizzagate Mike Cernovich.

Uma suposição crucial, que Žižek quase solta como se fosse um descarte,  é a de que Mike Pence (vice-presidente dos EUA) seria “muito pior” do que Trump. Isso não está claro e é um argumento geralmente usado para evitar conversas sobre impeachment, que certamente prejudicaria os republicanos, como com Nixon nos anos 70 e com Clinton no fim dos 90. O ponto não é que Trump ou Pence seria pior – eles são ambos errados. É engraçado como alguns daqueles que disseram durante a eleição de Hillary que não votariam nela por ser um “mal menor” agora se esquivam da deposição de Trump precisamente pela mesma razão. O próprio Žižek disse que votaria em Trump para criar um “grande despertar” – mas que argumento sólido foi esse.

Essa suposição problemática sobre comparação dos males mostra que a luta de classes é a raiz de toda motivação política? Não, raça e falsa consciência é a raiz do populismo atual do Partido Republicano num modo profundo e bem complexo. Se você não pode desconstruir isso, você não consegue luta de classes unida fora de “diferencialismo” meio que fascistoide. Você não pode levar o povo da “faça da América branca novamente” para a esquerda sem reduzir o anti-racismo a uma tábua menor, transformando a esquerda numa sombra de si mesma – facilmente uma parceira menor numa coalizão com a mania genocida.

Por fim, a luta “pelos seguidores de Bannon”,  como Žižek coloca, é uma luta por nazistas – Bannon promove a Alt-Right e tornou-se, pela sua força, uma de suas mais importantes figuras. Breitbart frequentemente faz alusões a nacionalistas brancos, se opõe à neutralidade na internet e, entre escândalos recentes, seu prominente escritor Jack Harfield foi pego administrando um grupo fascista no Facebook. Se o argumento de Žižek fosse “lutemos para angariar os moderados e independentes da classe média americana que votaram nos republicanos por desespero”, então sim. A esquerda deveria estar persistentemente organizando a classe trabalhadora. Mas não está. Está, em suas próprias palavras, numa “aliança de todas as forças anti-establishment”. Sim, Žižek, que foi chamado de o leal defensor à esquerda da Fortaleza Europa e permanece um apoiador forte, para não dizer chauvinista, do Eurocentrismo, está hoje nos pedindo para criar uma coalizão vermelha-marrom de “forças anti-establishment”.

Isso é nada menos do que um apoio à ideologia de Bannon, que demanda uma “aliança anti-establishment” contra os “globalistas” (exemplo, a democracia liberal) e um convite ao ressurgimento fascista. Sem dar muito crédito ao agressivo promotor do nacionalismo branco, ele mesmo, ser o “Bannon da esquerda”, Žižek teria de produzir estratégia política enquanto vivencia a vida americana na sua total complexidade. No entanto, ele não passa de um aspirante cuja ideologia meramente sustenta um tipo de Trumpismo lite. Essa é a pior posição possível, pois em conformidade com sua inclinação ideológica, Žižek leva as pessoas até o meio de caminho e, talvez, espera que elas não “sigam até o fim”.

 

1 comment so far ↓

#1 My piece on Žižek was translated into Portuguese by Anarkomidia – Alexander Reid Ross on 12.22.17 at 23:46

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