Grupos identitários, Bolsonaro, e uma resposta ao texto de Rodolfo Borges em El País Brasil

Cris Oliveira

Li ontem um artigo no El País que afirmava que o discurso identitário impulsiona a campanha de Bolsonaro à presidência. Gostaria de refletir sobre alguns pontos do texto.

O primeiro ponto é a premissa central do argumento e eu devo admitir que, aqui, o autor parece estar certo. Quando atacam Bolsonaro através do discurso de defesa das minorias e grupos identitários, o público do candidato não se importa com as acusações. Aliás, ao contrário, esse público sente orgulho. Se você atribui responsabilidade a um racista pelo mal que o racismo causa, esse racista sentirá satisfação pelo dever cumprido. Troque racismo por qualquer outra forma de exclusão e o exemplo se mantém. Se os LGBTs confirmam que Bolsonaro aumenta a exclusão dos LGBTs perante a sociedade, então quem quer excluir os LGBTs se sente bem representado pelo candidato.

Em nome da sensibilidade do leitor, alteramos a imagem e apresentamos, no lugar do dito-cujo, o Candidado Bostonaro.

Em nome da sensibilidade do leitor, alteramos a imagem para algo mais agradável, porém ainda fiel à realidade.

O próximo ponto é, porém, mais complicado. O autor do texto não fornece alternativa de discurso ou ação para os grupos minoritários com relação ao avanço do reacionarismo. Talvez isso não seja um problema, tendo valor por si só o argumento cautelar. Mas a forma como isso é feita parece revelar as intenções do autor para com os que reivindicam a pauta identitária. Logo no primeiro parágrafo, ele caracteriza tais proponentes como arrogantes e hipócritas, cujo discurso apresentaria uma forma de ódio reverso. Óbvio, não diz tal coisa de forma literal, mas sob um véu de sarcasmo. Mais à frente, diz que tais discursos não raro interditam todo debate sobre qualquer que seja o assunto.

Não, eu não acredito que o autor seja contra tais pautas, mas que ele realmente quer que quem as defende pense numa forma mais inteligente de fazê-las ou de abordar seus adversários. Porém, se ele está certo em apontar que os identitários estão falhando em superar sua oposição, ele, junto com quem mais usar discurso semelhante, falhará em impedir que quem eles criticam falhem, pois sua atitude não é, nesse momento, diferente daquela que os eleitores do Bolsonaro têm. Ambos estão cansados de ouvir o discurso reivindicatório das minorias e desejam que tal discurso se cale. Claro, o autor negaria querer que feministas, negros, LGBTs, etc. se calassem definitivamente, mas, nesse momento, com relação ao que está acontecendo agora e com a mensagem que ele passa, o que ele defende não é diferente do que os bolsominions defendem.

Imagino que alguém diria que o autor do texto não pode ser responsabilizado por não conseguir impedir o erro de quem ele critica, que a responsabilidade do erro seria de quem erra, mas então para que fazer tal crítica? A crítica não tem um objetivo? A crítica é eficiente ou não em alcançar tal objetivo? Se o objetivo não for alcançado, então ele não falhou? A minha crítica à sua estratégia é tão válida quanto a sua crítica à estratégia alheia.

Inclusive o autor faz uma comparação um tanto incerta de Bolsonaro com Donald Trump, dizendo que eles são “completamente diferentes, mas seguem regras parecidas”, numa das frases mais infelizes da semana, dada a contradição gritante.* Segue dizendo que a mídia faz narrativa apocalíptica que não reflete a realidade. O que ele falha em perceber é que a estrutura da sociedade se manterá mesmo que os princípios defendidos pela democracia (mesmo que seja ela a democracia da desigualdade que nós anarquistas rejeitamos como um mero avanço nas tecnologias políticas de dominação, ou seja, tirania) sejam rasgados na frente de todos. Quando o véu da democracia cai por terra e a tirania se mostra a todos, as cidades não ruem, a economia não desaparece e a produção continua. Não é uma questão de “os efeitos maléficos talvez sejam sentidos daqui a alguns anos”, mas que já podemos estar presenciando o processo de ascensão de tiranias como já houve no passado. Assim como a Itália não se transformou num deserto quando o PNF alcançou o poder, não importa se não surja uma besta apocalíptica do mar. Aliás, o contrário seria mais fácil de identificar e enfrentar. E dada a escala da coisa e os países que apresentam crises políticas e culturais semelhantes, talvez seja sinal de que o período das democracias representativas esteja realmente chegando ao fim. Posso estar errado e dizer tal coisa sem possuir uma bola de cristal pode sim ser temerário, mas por que então digo isso mesmo assim?

Porque o desprezo pelos princípios democráticos encontra respaldo em parte da população, cujo tamanho exato não tenho como estimar, mas não é uma parcela desprezível dado o impacto de sua postura. Não sei dizer se uma parte desses percebeu que os princípios democráticos são como um cenário teatral de papelão que esconde a realpolitik, mas o que parece mais óbvio é que esse público, em geral, pensa em garantias constitucionais como empecilhos. Em outras palavras, não acho que seja uma desilusão com quão falsas são as garantias democráticas, mas a aceitação do finalismo político (coloquialmente chamado de maquiavelismo), da submissão e do direito da força.

Se vemos brasileiros aplaudindo intervenções militares, é por causa disso. Por mais que fôssemos ensinados, seja na escola ou pela TV, a valorizar nossa democracia (teatro que seja) por ser recentemente adquirida após um período ditatorial militar, o discurso que importa a lógica da guerra para o território interno tem encontrado tanto plataforma quanto audiência. Essa parcela do povo que vota em Bolsonaro e aplaude generais racistas, saudosos da ditadura e que acham heroica a atuação militar na atroz intervenção no Haiti, querendo usar no Rio de Janeiro os mesmos meios empregados lá, demonstra não se importar com garantias individuais ou com pluralidade cultural. O que importa é um ideal de bem público que deve ser compartilhado à força por todos e essa mesma força deve ser usada na implementação e proteção de tais bens. Ou seja, quem não estiver em conformidade, é descartável. Ou mesmo quem estiver em conformidade, desde que seu descarte seja favorável ao interesse do poder.

O maior erro dos grupos identitários, ao meu ver, é buscar reconhecimento perante quem lhes busca excluir. Muitas das vezes, essas identidades são construídas justamente na relação entre oprimido e opressor. Por exemplo, não consigo enxergar uma identidade homo/bissexual comum a todos os indivíduos da categoria que não seja a homoafetividade. Qualquer aspecto além disso atribuído universalmente aos indivíduos homo/bissexuais é esteriótipo atribuído pelo opressor. O que eu proponho em vez disso é que o norte de tais iniciativas seja não o reconhecimento das identidades, mas a sobrevivência. Eu não quero ser torturado e morto por ser bissexual, nem que minha família, logo após deixar a delegacia, corrobore a mentira policial de que eu me suicidei, a despeito do corpo basicamente triturado. Por que eu vou querer inclusão numa sociedade se eu não a transformo? Ou será que eu terei de esperar estar incluído para poder começar a colaborar com sua transformação? E como farei isso sem garantia de sobrevivência além da minha própria cautela? De fato há grupos cuja preservação da identidade é ligada necessariamente à luta por sobrevivência, como grupos nativos, outras minorias étnicas, camponeses, etc. Mas para todos os grupos oprimidos, o que une os sujeitos é a luta pela sobrevivência, a luta contra a opressão. Antes da escravidão mercantilista imposta pelos brancos, não havia “o negro”, mas uma multiplicidade de povos subsaarianos. A partir daí, a luta pela sobrevivência une a todos. Claro, o movimento negro vai defender o direito às suas tradições e costumes, mas isso é sobrevivência tanto enquanto comunidade quanto necessidade para qualidade de vida dos indivíduos membros dessas comunidades. É defesa contra etnocídio. No caso dos LGBTs, como não formamos um povo ou etnia, o que nos une é o sofrimento e a resistência, ou seja, a luta. É só a partir daí que nos sentimos como uma entidade coletiva.

Mas o eleitor do Bolsonaro não liga para o fato do negro ser alvo preferido de revistas aleatórias e de balas de policiais e soldados (e repare que tal eleitor pode até ser negro e pensar assim). Ele não liga para um adolescente homossexual com todos os dentes arrancados, marcas de espancamento e outros inúmeros ferimentos ter como laudo de causa de morte queda de viaduto por suicídio (imagine se o viaduto tivesse o dobro de altura: ele explodiria?). E é aqui que o autor do artigo no El País acerta: você não pode convencer alguém que te despreza a te aceitar, a não ser que você abdique de quem você é, ao menos publicamente. Aqui talvez alguém diga que o fundamento da luta identitária é a defesa das identidades individuais em vez de coletivas, mas já vimos que o eleitor do Bolsonaro não liga para direitos individuais. Na verdade, ele liga sim, mas desde que o indivíduo esteja em acordo com os mesmos valores que ele. Afinal de contas, tal sujeito é egoísta e visa o seu bem particular. Na lógica da guerra do mais forte contra o mais fraco, ele se junta ao lado do mais forte pelo bem próprio. Mas o autor também erra, pois faz um apelo que, embora possa ter intenção diferente, resulta em algo semelhante ao que os reacionários defendem: que quem luta pela sobrevivência sofre de histerismo e precisa fazer menos barulho.

 

PS¹: Se lembrarmos que nem todo reacionário deseja realmente a eliminação do diferente, se contentando apenas com seu silenciamento, poderemos ver que alguém pode ser considerado um progressista e mesmo assim manter posturas conservadoras ou mesmo reacionárias ao deslegitimar reivindicações de grupos oprimidos. Alguém que é muito conservador, mas valoriza o individualismo, pode aceitar o direito do diferente de existir, desde que este não o incomode com suas reclamações, independente da violação de direitos que possa sofrer por ser diferente, já que o conservador não reconhece tais violações. Tal silenciamento promove a exclusão mesmo sem a intenção do silenciador. É nesse ponto que um progressista que não vê tais reivindicações como legítimas entra em acordo com o reacionário, mesmo que não admita.

Não é necessariamente um problema concordar com alguém que seja conservador ou reacionário, mas é sim um problema se se concorda com aquilo que faz dele conservador ou reacionário.

PS²: Isso me lembra de quando Trump foi eleito e alguns centristas botaram a culpa toda na esquerda “raivosa” por tentar impedir os neonazistas de se expressarem publicamente – embora tais centristas nem sempre admitissem na época que se tratava de neonazistas…

*É, eu entendi o que ele quer dizer, mas se você é completamente diferente, não pode ter uma semelhança sequer. É uma contradição e me dói a mente ler isso.

0 comments ↓

There are no comments yet...Kick things off by filling out the form below.

Leave a Comment