Comunicação na era do Facebook (ou Hatebook…)

-Cris O.

É comum termos contato com os podres que rolam nos partidos políticos e muitas vezes fazemos denúncias públicas e cobranças por explicações. Infelizmente, somos atacados por eleitores e membros da base de tais partidos que tomam tais acusações como ofensas pessoais a si. Não é nosso intento brigar com tais pessoas, com membros comuns do povo, mas, ao mesmo tempo, não devemos nos furtar de criticar lideranças partidárias ou mesmo decisões legitimadas pela estrutura de organização do partido. Sim, o carinha lá da base, mesmo que contribua para o partido como um todo, não pode ser inimizado por ter escolhido meios de luta diferente dos meios anarquistas. A luta por sobrevivência, dignidade e justiça social é uma luta de todos e cada um tem a liberdade para julgar de que forma prefere travar tal luta.

Dito isso, discussões acaloradas pela internet só atrapalham, pois não está em jogo nelas a deliberação racional, mas sentimentos apaixonados de quem defende organizações e personagens como um religioso defende sua doutrina ou como um torcedor defende seu time. Mesmo que você creia ser o santo da racionalidade defendendo seu argumento  das hostes insanas enfurecidas, você só está se distanciando de pessoas em vez de produzir reflexão. Mesmo que você creia que tais pessoas são incapazes de chegar à reflexão, você está se dedicando a uma tarefa infrutífera.

Se alguém estiver farejando autocrítica nas palavras ditas acima, parabéns.

E enquanto isso, no mundo da Anarcolândia, pelo menos na sucursal local aqui, o que temos são grupos tentando destruir as iniciativas de outros grupos na vida real, outros grupos virando a cara quando vêem merda sendo feita (inclusive rechaçando quem tem coragem de botar a boca no trombone) e alguns (vários?) elementos  desejando o mal alheio por divergências. Eu até entendo esses que desejam o mal à distância, embora não concorde. Há uma aversão pela militância organizacional que, pelo menos aqui, se deveu a uma aproximação entre anarquistas e outras correntes. Um dos resultados de tal aproximação foi traição, criminalização, xisnovagem e fazer o outro de boi de piranha. Então esses críticos geralmente odeiam todo mundo que foi ilustrado aqui, seja quem trai, seja quem é traído, sejam quem se omite. Odeiam, como um todo, esse panorama organizacional que os frustrara já lá atrás.

Sim, quando comecei a militar, me associei a marxistas-leninistas por um tempo. Justamente quando eu ainda não sabia direito o que era uma coisa nem outra (vocês não sabem o quão sério eu digo isso), apenas queria ser acolhido num ambiente no qual pudesse me organizar para agir. Eu fico então me perguntando onde estava essa gente, que acusa a mim e a outros de nos juntarmos com quem não devíamos, na época em que comecei a militar? Se alguém tivesse me oferecido oportunidade de me organizar com pessoas mais alinhadas aos meus próprios valores, talvez eu não tivesse me associado com stalinistas que se dispuseram a acusar anarquistas na justiça para se safarem e que, anos mais tarde, voltaram a tentar destruir a vida de uma companheira para meramente produzir plataforma de eleição universidade frente a um corpo discente que lhe rejeita.

Eu gostaria muito de ter tido tal capacidade de visão na época, mas considerando que foi aquele pessoal stalinista-maoista que deu apoio às ações das quais eu participava e cuja recíproca era verdadeira, quem me critica hoje não ofereceu contraponto à época. E mesmo anos depois da dissolução de tal aliança, quando novas traições ocorrem, esses críticos continuam a nos acusar de mulher de malandro, que me perdoem a expressão sexista. Criticam hoje as vítimas como se o erro de tais vítimas fosse para com mais alguém a não ser elas mesmas. Torcer pela infelicidade de companheiros como quem vibra com a derrota de algum concorrente de BBB não é nada anarquista.

Ainda fica a pergunta sobre como proceder em espaços como sindicatos ou movimentos sociais de esquerda sem orientação exata definida. Será que devemos abandonar o dualismo organizacional e o sindicalismo revolucionário? Não me surpreenderia se aqueles críticos disserem que sim, já que muitos são avessos à perspectiva organizacional.

Imagino já a má fé de alguém que diga que eu estou propondo que devemos trocar alianças com stalinistas por alianças com partidos social-democratas. Não, eu não disse isso. Eu disse que discutir feito um aloprado na internet é inútil e contraproducente e só. A isso acrescento agora que o anarquismo precisa crescer em números no mundo real, pois de nada adianta louvar a pureza do anarquismo em nossos pequenos círculos sociais fechados, sem promovê-lo efetivamente. E, por promovê-lo, eu digo difundi-lo através do povo e fazer com que o povo sinta vontade de difundi-lo ainda mais, e não montar comunidades no Facebook para compartilhar memes ou disputar quem é o mais anarquista. Do contrário, o povo não nos enxergará como alternativa à lógica eleitoral que já está posta.

 

PS (28/03): Continuo atuando em espaços onde há gente das mais diversas correntes, desde que o espaço não seja pautado em virtude dos valores propostos por tais correntes. Até imagino que quando a FIP tenha começado, ela fosse assim, mas não voltaria a entrar em algo como aquilo no que ela se tornou. No caso de uma iniciativa com membros de vertentes diversas, quando decisões inconciliáveis com o anarquismo começam a ser tomadas, é hora dos anarquistas partirem dali.

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