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Comitê Invisível – Trecho sobre a necessidade de se organizar por fora da lógica econômica para combater o capitalismo

Posted on Sunday, May 6, 2018 in General

A lógica da sociedade é oposta à da comunidade. Enquanto a comunidade consiste nas experiências compartilhadas entre seus indivíduos, a sociedade é a negação dessa vida compartilhada em favor da união forçada de indivíduos atomizados que pouco se toleram e muitas vezes se odeiam. Para que tal esquizofrenia se realizasse, foi preciso separar da esfera da vida as esferas da política e da economia. Então obedecemos leis que odiamos e gostaríamos de derrubar e trabalhamos em empregos que também odiamos para gente que não gostaríamos nem de ver. Tudo isso para amarrar uma sociedade que deseja explodir – e quanto maior a pressão, maior o risco de explosão. As principais teorias políticas repetem que a vida pública deve estar separada das vidas pessoas. Nega-se as comunidades e o comunismo para se impor as instituições e a burocracia; submete-se cada vida pessoal à entidade fictícia, o Leviatã.

Matar o Leviatã e inverter essa lógica é se libertar para viver em comunismo com aqueles que bem queremos, de acordo com nossos valores compartilhados em vez dos impostos de cima para baixo, usando nossas forças para realizar o que amamos e realmente escolhemos fazer.

Enquanto socialistas institucionais de hoje em dia propõem intensificarmos ainda mais as relações capitalistas e empreendedores tentam sair da lógica vigente por meios que ainda se submetem à ela, o Comitê Invisível defende que somente perfurando as estruturas econômicas e praticando hoje o que se quer alcançar no amanhã – ou seja, usando-se meios que condizentes com os fins – é possível superar o capitalismo em direção ao comunismo. Do contrário, não podemos esperar seu fim se nos limitamos a reproduzi-lo sem parar.

O Comitê Invisível representa muito mais uma autocrítica às limitações históricas da militância, que ora falha em considerar as vicissitudes do mundo ao redor, ora se desvia, do que um abandono dos princípios anarquistas, como alguns leitores, de má vontade, fazem parecer. Afinal de conta, é alguma novidade defender meios condizentes com os fins?

 

 

“Fim do trabalho – Vida mágica!”

Em nossos dias, há uma multidão de pessoas que tentam escapar do regime da economia. Tornaram-se padeiros em vez de consultores. Ficam desempregados tão logo podem. Montam cooperativas, SCOP [Sociedade cooperativa de produção], SCIC [Sociedade cooperativa de interesse coletivo]. Tentam “trabalhar de outro modo”. Mas a economia é tão bem consolidade que já tem um setor, o da “economia social e solidária”, que se turbina graças à energia daqueles que a fazem. Um setor que tem direito a um ministério particular e que pesa 10% do PIB francês. Já foram dispostos todos os tipos de redes, de discursos, de estruturas jurídias, para recolher os fugitivos. Estes se entregam com toda a sinceridade do mundo ao que sonham fazer, mas sua atividade é recodificada socialmente, e tal código acaba por se impor ao que fazem. Começa-se tomando conta coletivamente do manancial de sua aldeia e, um dia, encontra-se “gerenciando os comuns”. Poucos setores desenvolveram um amor tão fanático pela contabilidade, pelo bem da justiça, pela transparência ou exemplaridade do que o da economia social e solidária. Qualquer pequena ou média empresa é um bordel contábil em comparação. Entretanto, temos mais de cento e cinquenta anos de experiência em cooperativ

as para saber que estas jamais ameaçaram minimamente o capitalismo. Aquelas que sobrevivem acabam, cedo ou tarde, por se tornar empresas como outras quaisquer. Não há uma “outra economia”, há apenas uma outra relação com a economia. Uma relação de distância e de hostilidade, justamente. O erro da economia social e solidária está em crer nas estruturas de que se dota. Está em querer que aquilo que nela se passa coincida com os estatutos, com o funcionamento oficial. A única relação que podemos ter com as estruturas que nos damos é utilizá-las como escudos, a fim de fazer algo completamente diferente do que a economia autoriza. Está, assim, em ser cúmplice desse uso e dessa distância. Um local para impressão comercial mantido por um amigo colocará suas máquinas à disposição nos fins de semana em que estas não estão operando, e o papel será conseguido no mercado negro, para que ninguém perceba. Um grupo de amigos carpinteiros utiliza todo o material a que tem acesso em seu lugar de trabalho para construir uma cabana para a ZAD. Não podemos recorrer às estruturas econômicas senão sob a condição de perfurá-las.

Como estrutura econômica, nenhuma empresa tem sentido. Ela é, isso é tudo, mas ela não é nada. Seu sentido vem de um elemento estranho à economia. Geralmente, é tarefa da “comunicação” revestir a estrutura econômica do sentido que lhe falta – é preciso, aliás, considerar as razões de ser e a significação moral exemplares com que se dotar, com tanto prazer, as entidades de economia social e solidária como uma banal forma de “comunicação” dirigida tanto para o interior quanto para o exterior. Isso faz de algumas delas nichos que se permitem, por um lado, praticar preços estranhamente algos e, por outro, explorar de maneira ainda mais vergonhosa com o mote de que é “pela boa causa”. A estrutura perfurada, por sua vez, tira seu sentido não do que ela comunica, mas do que ela guarda em segredo: sua participação clandestina em um desenho político muito mais vasto do que ela, o uso para fins economicamente neutros – isto é, insensatos, mas politicamente judiciosos – de meiso que, como estrutura econômica, ela tem a vocação de acumular sem fim. Organizar-se revolucionariamente sob o abrido de todo um cipoal de estruturas legais que trocam entre si é possível, mas perigoso. Isso pode fornecer, entre outras coisas, uma cobertura ideal às relações conspiradoras internacionais. A ameaça está sempre, entretanto, em recair no atoleiro econômico, em perder o fio do que foi feito, em não mais perceber o sentido da conjuração. Isso não elide o fato de que é preciso se organizar, organizar-se a partir do que amamos e fazer dotar-se dos meios para fazê-lo.

A única medida do estado de crise do capital é o grau de organização das forças que pretendem destruí-lo.

 

Comitê Invisível – Motim e Destituição Agora, Cap.5: Fim do Trabalho – Vida Mágica, pp. 129 – 133

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