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Protofascismo: um conto

Posted on Saturday, June 9, 2018 in General

Por Cris O.

Peguei um BRT (para quem não conhece, é aquele ônibus que trafega por uma via expressa exclusiva) e, na falta de bancos livres, sentei num degrau que havia num vão. Então um outro passageiro sentou no degrau em frente ao meu e resolveu puxar assunto, comentando sobre como era estranho aquele vão ali não estar preenchido por mais bancos. Em vez de ignorá-lo, resolvi dialogar. Ele evoluiu disso para criticar o estado de conservação dos ônibus e, como todo brasileiro, se ele critica qualquer coisa, deve prosseguir com uma crítica generalizada ao Brasil como um todo. Não me incomodei, pois esse é um vício muito comum entre nós, já estou acostumado. (Eu também já fui culpado desse vício inumeras vezes no passado, confesso.) Ele então fez comparações com Portugal, país que disse ter visitado. Comecei duvidando, mas as descrições detalhadas que ele fazia soaram convincentes. Contou como fora multado por ser reconhecido pelo sistemas de monitoramento por câmera enquanto jogava uma bituca de cigarro no chão. Nem sei se Portugal tem sistema de CFTV público. Nunca fui a Portugal. Se era lorota ou verdade, tanto faz. Entusiasmado, ele veio sentar ao meu lado para continuar a conversa. Chegou na sua estação e ele desceu.

Então um cara sentado mais atrás, num banco alto, resolveu reclamar do sujeito que acabara de sair. “O cara é guia turístico?” debochou de como o sujeito falava muito. Seguiu suas reclamações num tom agora mais hostil. “Porra, é um cheirado! Outro dia ele veio me pedir cinco reais para pegar ônibus. Eu passo 4 horas no quartal trabalhando de baixo de carro quente (deve trabalhar como mecânico no exército) para o cara vir com esse papo. Eu pensei que ele fosse te roubar. Já tava aqui pronto para dar uma voadora!”

O rapaz que conversara comigo tinha mesmo uma atitude mais efusiva que o comum, mas em nenhum momento tentou fazer algo de errado comigo. Em nenhum momento representou risco para qualquer um dentro do ônibus. Seria tal efusividade consequência de uso de drogas? Sim, poderia, mas, e daí? Se tudo que o cara fez foi ser mais simpático que o usual com uma pessoa estranha, qual o meu interesse em especular sobre o que o cara faz com o próprio nariz? O que me deixou de sobressalto ali não foi um sujeito empolgado por motivos que não me interessam, mas sim um soldado perfilando passageiros, buscando motivos para desumanizar e excluir determinados sujeitos fora dos seus padrões de aceitabilidade – ao ponto de se sentir legitimado a distribuir voadoras por aí.

No dia anterior, meu bairro foi sitiado pelo exército. Eu o atravessei de ônibus vendo dezenas de homens mascarados e em uniformes camuflados, portanto submetralhadoras HK, além de vários veículos de guerra. Pensem, então, que aquele passageiro hostil no ônibus era um soldado em horário de folga. Agora, imaginem esse produto da cultura militarista somado a uma HK, multiplicado por dezenas e numa missão de guerra dentro da própria cidade, desejoso por eliminar todos aqueles que ele julga serem elementos destoantes do modelo de ordem que ele defende.

Eu posso parecer ingênuo por me mostrar desconcertado por presenciar aquele tipo de discurso sendo expressado publicamente de forma tão livre. Uns dirão que gente ruim existir é um fato inevitável da vida — e não estarão errados. O que eu temo é a penetração desse discurso através da população. É um autoritarismo que transforma cada um em um mini-ditador, tentando eliminar o próximo. E assim, povo é jogado contra povo e nada mais pode ser construído em nível comunitário, já que todo vizinho é um inimigo em potencial. A vitória da tirania é quando o estado convence o cidadão a exercer ele mesmo a tirania em nome do estado.

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