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Jun 9

Protofascismo: um conto

Posted on Saturday, June 9, 2018 in General

Por Cris O.

Peguei um BRT (para quem não conhece, é aquele ônibus que trafega por uma via expressa exclusiva) e, na falta de bancos livres, sentei num degrau que havia num vão. Então um outro passageiro sentou no degrau em frente ao meu e resolveu puxar assunto, comentando sobre como era estranho aquele vão ali não estar preenchido por mais bancos. Em vez de ignorá-lo, resolvi dialogar. Ele evoluiu disso para criticar o estado de conservação dos ônibus e, como todo brasileiro, se ele critica qualquer coisa, deve prosseguir com uma crítica generalizada ao Brasil como um todo. Não me incomodei, pois esse é um vício muito comum entre nós, já estou acostumado. (Eu também já fui culpado desse vício inumeras vezes no passado, confesso.) Ele então fez comparações com Portugal, país que disse ter visitado. Comecei duvidando, mas as descrições detalhadas que ele fazia soaram convincentes. Contou como fora multado por ser reconhecido pelo sistemas de monitoramento por câmera enquanto jogava uma bituca de cigarro no chão. Nem sei se Portugal tem sistema de CFTV público. Nunca fui a Portugal. Se era lorota ou verdade, tanto faz. Entusiasmado, ele veio sentar ao meu lado para continuar a conversa. Chegou na sua estação e ele desceu.

Então um cara sentado mais atrás, num banco alto, resolveu reclamar do sujeito que acabara de sair. “O cara é guia turístico?” debochou de como o sujeito falava muito. Seguiu suas reclamações num tom agora mais hostil. “Porra, é um cheirado! Outro dia ele veio me pedir cinco reais para pegar ônibus. Eu passo 4 horas no quartal trabalhando de baixo de carro quente (deve trabalhar como mecânico no exército) para o cara vir com esse papo. Eu pensei que ele fosse te roubar. Já tava aqui pronto para dar uma voadora!”

O rapaz que conversara comigo tinha mesmo uma atitude mais efusiva que o comum, mas em nenhum momento tentou fazer algo de errado comigo. Em nenhum momento representou risco para qualquer um dentro do ônibus. Seria tal efusividade consequência de uso de drogas? Sim, poderia, mas, e daí? Se tudo que o cara fez foi ser mais simpático que o usual com uma pessoa estranha, qual o meu interesse em especular sobre o que o cara faz com o próprio nariz? O que me deixou de sobressalto ali não foi um sujeito empolgado por motivos que não me interessam, mas sim um soldado perfilando passageiros, buscando motivos para desumanizar e excluir determinados sujeitos fora dos seus padrões de aceitabilidade – ao ponto de se sentir legitimado a distribuir voadoras por aí.

No dia anterior, meu bairro foi sitiado pelo exército. Eu o atravessei de ônibus vendo dezenas de homens mascarados e em uniformes camuflados, portanto submetralhadoras HK, além de vários veículos de guerra. Pensem, então, que aquele passageiro hostil no ônibus era um soldado em horário de folga. Agora, imaginem esse produto da cultura militarista somado a uma HK, multiplicado por dezenas e numa missão de guerra dentro da própria cidade, desejoso por eliminar todos aqueles que ele julga serem elementos destoantes do modelo de ordem que ele defende.

Eu posso parecer ingênuo por me mostrar desconcertado por presenciar aquele tipo de discurso sendo expressado publicamente de forma tão livre. Uns dirão que gente ruim existir é um fato inevitável da vida — e não estarão errados. O que eu temo é a penetração desse discurso através da população. É um autoritarismo que transforma cada um em um mini-ditador, tentando eliminar o próximo. E assim, povo é jogado contra povo e nada mais pode ser construído em nível comunitário, já que todo vizinho é um inimigo em potencial. A vitória da tirania é quando o estado convence o cidadão a exercer ele mesmo a tirania em nome do estado.

May 6

Comitê Invisível – Trecho sobre a necessidade de se organizar por fora da lógica econômica para combater o capitalismo

Posted on Sunday, May 6, 2018 in General

A lógica da sociedade é oposta à da comunidade. Enquanto a comunidade consiste nas experiências compartilhadas entre seus indivíduos, a sociedade é a negação dessa vida compartilhada em favor da união forçada de indivíduos atomizados que pouco se toleram e muitas vezes se odeiam. Para que tal esquizofrenia se realizasse, foi preciso separar da esfera da vida as esferas da política e da economia. Então obedecemos leis que odiamos e gostaríamos de derrubar e trabalhamos em empregos que também odiamos para gente que não gostaríamos nem de ver. Tudo isso para amarrar uma sociedade que deseja explodir – e quanto maior a pressão, maior o risco de explosão. As principais teorias políticas repetem que a vida pública deve estar separada das vidas pessoas. Nega-se as comunidades e o comunismo para se impor as instituições e a burocracia; submete-se cada vida pessoal à entidade fictícia, o Leviatã.

Matar o Leviatã e inverter essa lógica é se libertar para viver em comunismo com aqueles que bem queremos, de acordo com nossos valores compartilhados em vez dos impostos de cima para baixo, usando nossas forças para realizar o que amamos e realmente escolhemos fazer.

Enquanto socialistas institucionais de hoje em dia propõem intensificarmos ainda mais as relações capitalistas e empreendedores tentam sair da lógica vigente por meios que ainda se submetem à ela, o Comitê Invisível defende que somente perfurando as estruturas econômicas e praticando hoje o que se quer alcançar no amanhã – ou seja, usando-se meios que condizentes com os fins – é possível superar o capitalismo em direção ao comunismo. Do contrário, não podemos esperar seu fim se nos limitamos a reproduzi-lo sem parar.

O Comitê Invisível representa muito mais uma autocrítica às limitações históricas da militância, que ora falha em considerar as vicissitudes do mundo ao redor, ora se desvia, do que um abandono dos princípios anarquistas, como alguns leitores, de má vontade, fazem parecer. Afinal de conta, é alguma novidade defender meios condizentes com os fins?

 

 

“Fim do trabalho – Vida mágica!”

Em nossos dias, há uma multidão de pessoas que tentam escapar do regime da economia. Tornaram-se padeiros em vez de consultores. Ficam desempregados tão logo podem. Montam cooperativas, SCOP [Sociedade cooperativa de produção], SCIC [Sociedade cooperativa de interesse coletivo]. Tentam “trabalhar de outro modo”. Mas a economia é tão bem consolidade que já tem um setor, o da “economia social e solidária”, que se turbina graças à energia daqueles que a fazem. Um setor que tem direito a um ministério particular e que pesa 10% do PIB francês. Já foram dispostos todos os tipos de redes, de discursos, de estruturas jurídias, para recolher os fugitivos. Estes se entregam com toda a sinceridade do mundo ao que sonham fazer, mas sua atividade é recodificada socialmente, e tal código acaba por se impor ao que fazem. Começa-se tomando conta coletivamente do manancial de sua aldeia e, um dia, encontra-se “gerenciando os comuns”. Poucos setores desenvolveram um amor tão fanático pela contabilidade, pelo bem da justiça, pela transparência ou exemplaridade do que o da economia social e solidária. Qualquer pequena ou média empresa é um bordel contábil em comparação. Entretanto, temos mais de cento e cinquenta anos de experiência em cooperativ

as para saber que estas jamais ameaçaram minimamente o capitalismo. Aquelas que sobrevivem acabam, cedo ou tarde, por se tornar empresas como outras quaisquer. Não há uma “outra economia”, há apenas uma outra relação com a economia. Uma relação de distância e de hostilidade, justamente. O erro da economia social e solidária está em crer nas estruturas de que se dota. Está em querer que aquilo que nela se passa coincida com os estatutos, com o funcionamento oficial. A única relação que podemos ter com as estruturas que nos damos é utilizá-las como escudos, a fim de fazer algo completamente diferente do que a economia autoriza. Está, assim, em ser cúmplice desse uso e dessa distância. Um local para impressão comercial mantido por um amigo colocará suas máquinas à disposição nos fins de semana em que estas não estão operando, e o papel será conseguido no mercado negro, para que ninguém perceba. Um grupo de amigos carpinteiros utiliza todo o material a que tem acesso em seu lugar de trabalho para construir uma cabana para a ZAD. Não podemos recorrer às estruturas econômicas senão sob a condição de perfurá-las.

Como estrutura econômica, nenhuma empresa tem sentido. Ela é, isso é tudo, mas ela não é nada. Seu sentido vem de um elemento estranho à economia. Geralmente, é tarefa da “comunicação” revestir a estrutura econômica do sentido que lhe falta – é preciso, aliás, considerar as razões de ser e a significação moral exemplares com que se dotar, com tanto prazer, as entidades de economia social e solidária como uma banal forma de “comunicação” dirigida tanto para o interior quanto para o exterior. Isso faz de algumas delas nichos que se permitem, por um lado, praticar preços estranhamente algos e, por outro, explorar de maneira ainda mais vergonhosa com o mote de que é “pela boa causa”. A estrutura perfurada, por sua vez, tira seu sentido não do que ela comunica, mas do que ela guarda em segredo: sua participação clandestina em um desenho político muito mais vasto do que ela, o uso para fins economicamente neutros – isto é, insensatos, mas politicamente judiciosos – de meiso que, como estrutura econômica, ela tem a vocação de acumular sem fim. Organizar-se revolucionariamente sob o abrido de todo um cipoal de estruturas legais que trocam entre si é possível, mas perigoso. Isso pode fornecer, entre outras coisas, uma cobertura ideal às relações conspiradoras internacionais. A ameaça está sempre, entretanto, em recair no atoleiro econômico, em perder o fio do que foi feito, em não mais perceber o sentido da conjuração. Isso não elide o fato de que é preciso se organizar, organizar-se a partir do que amamos e fazer dotar-se dos meios para fazê-lo.

A única medida do estado de crise do capital é o grau de organização das forças que pretendem destruí-lo.

 

Comitê Invisível – Motim e Destituição Agora, Cap.5: Fim do Trabalho – Vida Mágica, pp. 129 – 133

Apr 15

Esquerda capitulando ao capitalismo, partido defendendo a polícia e por aí…

Posted on Sunday, April 15, 2018 in General

Hoje, o jornal El País publicou entrevista com Marcelo Freixo (PSOL) onde ele defende a polícia enquanto classe trabalhadora, celebra a existência do grupo “Policiais Antifascistas” e a presença de policiais no partido. Além disso, revela não gostar quando manifestantes pedem o fim da polícia militar.

No Brasil de hoje, aparentemente o único discurso de esquerda que é levado a sério é uma social democracia que balança entre igualitarismo reformista e desenvolvimentismo. Se qualquer coisa além é visto como utopismo, significa que o que sobra é a capitulação à ordem capitalista. A esquerda brasileira se baseia em integrar todos à economia capitalista e suas relações de produção e serviços, mas isso nem ao menos tem a ver com aquela ideia – já em si problemática – de que é preciso promover o capitalismo para se chegar ao estágio do socialismo. O objetivo da social democracia não ultrapassa o capitalismo, não vislumbra uma mudança de modelo de sociedade. A mudança, para eles, se resume a igualar as oportunidades dentro do sistema que já está posto. Óbvio, um pobre jamais terá as mesmas oportunidades de um rico, então a igualdade é meramente hipotética, enquanto suaviza-se as porradas levadas por conta da desigualdade de patamares.

O discurso do desenvolvimentismo, quando parte de uma perspectiva populista, é o de que quanto mais gente você integra ao proletariado, mais direitos você está garantindo através do aumento do poder de compra. Enquanto eu admito que as pessoas precisam comer, não há aqui um plano de superação das relações de exploração. Não há uma perspectiva de emancipação do trabalhador. Há uma cristalização das relações de dominação entre as classes. Os ricos empresários ficam cada vez mais ricos, já que suas indústrias são expandidas. Obras públicas de vulto consolidam a relação entre a classe empresarial e o estado. A prosperidade da nação então é medida em crescimento da produção e do consumo de mercadorias e a exploração que permite tal crescimento é justificada numa lógica cristã em que o trabalho pelo trabalho enobrece o homem – mesmo que seja o trabalho alienante, embrutecedor e feito para enriquecer patrões e acionistas.

Esse desenvolvimentismo, com sua expansão industrial, construções de usinas, apoio ao latifúndio e destruição do meio ambiente, promove o etnocídio dos povos indígenas e comunidades camponesas, que são levados a integrar a força de trabalho industrial e de serviços em vez de viverem por meios que detêm e em suas próprias culturas. São levados então a inchar ainda mais as favelas nas cidades, onde são oprimidos pelas forças de estado no país com a polícia mais letal do mundo. O território brasileiro, até hoje, abriga várias nações indígenas e também outras comunidades que mantêm identidade cultural própria, mas seus direitos de autodeterminação são largamente ignorados na espectativa de que eles integrem a sociedade nacional dominante, mas essa integração é porca. Indígenas, campesinos e negros são então proletarizados e pauperizados. E, como já foi dito, essa conjuntura social volátil é preservada à base de tiro, porrada e bomba pela polícia.

Embora uma parcela do PT adore arrotar socialismo, suas políticas têm mais afinidade com varguismo e keynesianismo, ambas correntes anti-socialistas.

Já o PSOL não tem a mesma postura, ou melhor dizendo, dentro da colcha de retalhos ideológica que é o partido, com seus diversos grupos, é mais fácil encontrar textos contra o desenvolvimentismo. Porém quando o PSOL, ou uma personalidade importante do partido, defende a polícia enquanto trabalhadores, ele desconsidera que é inerente à polícia ser a defensora da propriedade privada e da ordem social da dominação de classes. Ele aposta numa reforma do sistema de coerção estatal como se o braço opressor pudesse trazer o bem à população. Tudo isso deixa claro que não faz parte dos objetivos da social democracia a mudança do capitalismo para algo sem exploração e dominação de classes, mas uma realização mais homogênea de tal sistema socioeconômico, como se isso fosse realmente desejável. Resta saber como pode ser esquerda algo que pretende realizar plenamente o capitalismo em vez de superar ou destruí-lo. É por isso que muitos se cansam da ideia de que a esquerda pode realmente ser um caminho para a transformação, já que se distanciou tanto daquilo que a originou, ou seja, a luta contra o capitalismo. E a social democracia, por sua vez, tenta deslegitimar qualquer radicalização e a cada dia se torna mais liberal, mais capitalista.

Não é à toa que o discurso igualitarista que visa aumentar a equidade participativa entre os diversos membros da sociedade é uma pauta já tradicional no liberalismo contemporâneo. Se o liberalismo defende que a sociedade é formada pelos acordos entre indivíduos livres e em pé de igualdade, faz sentido que parte dos liberais façam uso desses mesmos princípios adotados pela social democracia — porque tais princípios não visam o fim do capitalismo/liberalismo, mas sua plenitude. Se você souber ler inglês e tiver paciência, aqui tem um texto escrito por Elizabeth S. Anderson, uma filósofa liberal, sobre como outros intelectuais liberais bastante conservadores se apropriaram desse discurso para defenderem a continuidade das relações que possibilitam as opressões.

Agora, tenta você criticar a máquina partidária na presença de um eleitor ou de um membro da base do partido. A sua crítica será encarada como uma ofensa pessoal ou como uma afronta ao time de futebol pelo qual o sujeito torçe. Críticas a partidos não deveriam ser vistas como críticas aos eleitores ou mesmo aos militantes de base que não têm o mínimo poder de decisão dentro do partido que apoia. Essas pessoas são trabalhadoras e estudantes como todos os outros e simplesmente fizeram uma escolha sobre onde depositar suas esperanças. Não são idiotas, apenas tentam sobreviver como todos nós. Mas se você criticar um figurão do partido, sua crítica será internalizada pela pessoa. Se você criticar uma decisão do partido na qual a pessoa nem deu pitaco, essa crítica também será internalizada. Isso empobrece o debate político e faz com que as pessoas troquem os melhores meios para os fins desejados por corporativismo partidário e culto personalista, algumas vezes chegando ao messianismo.

 

-Cris O.

Apr 5

A conexão sinistra do Instituto Mises Brasil

Posted on Thursday, April 5, 2018 in General

Esta semana, a Newsweek publicou um artigo caracterizando a Antifa como fascista. O grosso do artigo, na verdade, procura mostrar como nazismo e comunismo seriam a mesma coisa. A palavra anarquismo nem chega a aparecer no texto. A lógica que serve de base para o texto é aquela falácia batida da internet que diz que governo grande é esquerda, governo pequeno é direita, logo todo mundo que não é liberal é de esquerda. Então lista-se um monte de características de cunho socialista que foram declaradas na propaganda fascista antes de chegarem ao poder, ignorando o fato do governo nazista ter sido o primeiro na história a executar uma política massiva de privatização e que os fascistas italianos, segundo Donal Sassoon:

“Depois da nomeação de Mussolini como primeiro-ministro, os industriais sentiram-se ainda mais recompensados com a designação de Alberto De Stefani, um intransigente liberal, como ministro das Finanças — para alegria de Luigi Einaudi (membro do Partido Liberal Italiano). De Stefani reduziu impostos, aboliu isenções fiscais que beneficiavam contribuintes de baixa renda, facilitou as transações com ações e a evasão fiscal reintroduzindo o anonimato (abolido por Giolitti), eliminou a regulamentação dos aluguéis, privatizou os seguros de vida (introduzidos por Giolitti) e transferiu a gestão do sistema de telefonia para o setor privado.” (SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do Fascismo. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p. 120)

Mas quem é o autor do artigo, Antony Mueller?

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Mar 16

Assassinato político no Rio e perseguição a militantes

Posted on Friday, March 16, 2018 in General

  • Com a execução da vereadora pela cidade do Rio de Janeiro, Marielle Franco, e seu motorista, Anderson Pedro Gomes, os assassinos estão mandando um recado de que todos os militantes pelos direitos dos pobres, em especial os de Acari, que não ocupam um cargo político são alvos mais fáceis ainda. Expresso aqui minha preocupação com a segurança da companheira Buba Aguiar, que teve a coragem de denunciar em público a barbárie do 41º Batalhão e já vem sofrendo ameaças. Isso, é claro, não quer dizer que não nos preocupemos com a vida dos demais que já morrem todos os dias, mas é preciso evidenciar a perseguição.

Marielle Franco

  • O comportamento dos inocentes úteis da reação nesse momento é nada menos que escandaloso. Rios de sangue podem correr, que eles continuam defendendo a polícia em nome de uma guerra contra aquilo que eles chamam de “os bandidos”, mesmo quando “os bandidos” são justamente a polícia. Essa seletividade demonstra que a figura do “bandido” representa nada de objetivo, mas um conjunto de valores que eles querem ver abolidos e tal abolição deve ser atingida abolindo-se vidas humanas, inclusive de quem for pego no meio do caminho e por acaso, mas principalmente a vida de quem defender aqueles que são pegos no fogo cruzado. Porém, seus bandidos de estimação, os da violência estatal, têm passe livre para promover uma bandidagem de expurgo sobre a população. Embora ainda poucos elementos dessa parcela da população sejam ativos, o discurso não difere muito em sentimento daquilo que motivou pessoas a integrar milícias em regimes fascistas e qualquer um que negue a gravidade dos eventos e processos presentes, se desesperará ao perceber, num futuro talvez próximo, que pouco ou nada fez para evitar que seu mundinho perfeito ruísse. Se nos negarmos a tentar mudar o mundo para melhor, e ele precisa muito melhorar, assistiremos sua mudança para pior.

 

  • Qualquer um que diga que Marielle e Anderson foram mortos pelos bandidos que ela defendia é um mau caráter, pois sabe que ela foi morta pelos bandidos de estimação dos reacionários, os que ela denunciava. Eu tenho medo desse precipício moral no qual parte da humanidade resolveu se jogar de bom grado.

 

  • Esse discurso contra “os bandidos” é só um recurso para tentar eliminar o contraditório do debate público. Afinal, quem teria a coragem de ser a favor de bandido, pergunta o cidadão aleatório na fila do pão? Bem, veja só, quando você defende o extermínio e os exterminadores, quem defende bandido é você! Essa falácia de “defender bandido” é especialmente útil durante a intervenção militar no Rio de Janeiro, pois militar opera na lógica de que se tiver que matar pessoas para evitar que o inimigo faça mal às pessoas que os próprios militares já estão predispostos a matar, então que se mate quantas pessoas forem necessárias ao cumprimento da missão. No teatro da vida real, mesmo que as premissas ainda sejam ficção, o sangue não é cenográfico.

 

  • Claro, o que os inocentes úteis repetem por aí é formulado por seus políticos e articulistas favoritos. Alguns dizem que a esquerda está se aproveitando da morte de Marielle para fazer politicagem. Ora bolas, foi um assassinato político! Como raios querem que tal assunto seja tratado? Como um mero infortúnio?

 

  • Miliciano de Jacarepaguá e ex-vereador, Cristiano Girão, esteve presente na Câmara dos Vereadores sete dias antes do assassinato de Marielle e Anderson, visitando o andar onde fica o gabinete de Chiquinho Brazão, irmão de Domingos, preso no ano passado pela operação Quinto do Ouro. Na mesma noite do crime, sua ex-esposa, Samantha Miranda, foi morta a tiros de fuzil no estacionamento de um restaurante na Barra da Tijuca, junto com seu marido, Marcelo Dotti.
Mar 2

Grupos identitários, Bolsonaro, e uma resposta ao texto de Rodolfo Borges em El País Brasil

Posted on Friday, March 2, 2018 in General

Cris Oliveira

Li ontem um artigo no El País que afirmava que o discurso identitário impulsiona a campanha de Bolsonaro à presidência. Gostaria de refletir sobre alguns pontos do texto.

O primeiro ponto é a premissa central do argumento e eu devo admitir que, aqui, o autor parece estar certo. Quando atacam Bolsonaro através do discurso de defesa das minorias e grupos identitários, o público do candidato não se importa com as acusações. Aliás, ao contrário, esse público sente orgulho. Se você atribui responsabilidade a um racista pelo mal que o racismo causa, esse racista sentirá satisfação pelo dever cumprido. Troque racismo por qualquer outra forma de exclusão e o exemplo se mantém. Se os LGBTs confirmam que Bolsonaro aumenta a exclusão dos LGBTs perante a sociedade, então quem quer excluir os LGBTs se sente bem representado pelo candidato.

Em nome da sensibilidade do leitor, alteramos a imagem e apresentamos, no lugar do dito-cujo, o Candidado Bostonaro.

Em nome da sensibilidade do leitor, alteramos a imagem para algo mais agradável, porém ainda fiel à realidade.

O próximo ponto é, porém, mais complicado. O autor do texto não fornece alternativa de discurso ou ação para os grupos minoritários com relação ao avanço do reacionarismo. Talvez isso não seja um problema, tendo valor por si só o argumento cautelar. Mas a forma como isso é feita parece revelar as intenções do autor para com os que reivindicam a pauta identitária. Logo no primeiro parágrafo, ele caracteriza tais proponentes como arrogantes e hipócritas, cujo discurso apresentaria uma forma de ódio reverso. Óbvio, não diz tal coisa de forma literal, mas sob um véu de sarcasmo. Mais à frente, diz que tais discursos não raro interditam todo debate sobre qualquer que seja o assunto.

Não, eu não acredito que o autor seja contra tais pautas, mas que ele realmente quer que quem as defende pense numa forma mais inteligente de fazê-las ou de abordar seus adversários. Porém, se ele está certo em apontar que os identitários estão falhando em superar sua oposição, ele, junto com quem mais usar discurso semelhante, falhará em impedir que quem eles criticam falhem, pois sua atitude não é, nesse momento, diferente daquela que os eleitores do Bolsonaro têm. Ambos estão cansados de ouvir o discurso reivindicatório das minorias e desejam que tal discurso se cale. Claro, o autor negaria querer que feministas, negros, LGBTs, etc. se calassem definitivamente, mas, nesse momento, com relação ao que está acontecendo agora e com a mensagem que ele passa, o que ele defende não é diferente do que os bolsominions defendem.

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Feb 18

Estado de direita teatral

Posted on Sunday, February 18, 2018 in General

A democracia liberal capitalista, insustentável, se apoia no autoritarismo. Arte de Cris Oliveira.

A democracia liberal capitalista, insustentável, se apoia no autoritarismo. Arte de Cris Oliveira.

#AnarquiaOuNada

#AbolirOCapitalismoEsmagarOEstado

Feb 17

Intervenção militar no Rio de Janeiro, a hipocrisia da pseudo-democracia quando sua máscara cai

Posted on Saturday, February 17, 2018 in General

Jan 16

Sobre a situação do camarada Renan Sant’anna

Posted on Tuesday, January 16, 2018 in General

ATUALIZAÇÃO: no dia 5 de fevereiro de 2018, Renan e seu primo Diego foram libertos. Mais informações na página da Ação Direta em Educação Popular – ADEP.

Via  Ação Direta em Educação Popular – ADEP:

Dia 9 de janeiro a polícia em mais uma operação na chamada “guerra as drogas” na favela da Mangueira, invadiu as casas de moradores e moradoras, dentre elas a de um companheiro de militância. A PM invadiu a casa da família do camarada Renan Sant’anna e prendeu ele e seus 2 primos.

Nesse momento Renan está numa cela com mais 50 presos passando por humilhaçõese sofrendo por “crime” que jamais cometeu. Lembremos que na 1a audiência de custódia uma juíza branca, reacionária e que faz parte de uma classe definida que é a elite do país, nem sequer olhou o histórico dos 3 e já sentenciou a prisão preventiva de cara, sem ouvir nem a defesa dos jovens… todos negros, favelados e pobres (bom lembrar tbm).

Pra finalizar temos que reforçar o caráter político da situação do Renan. O rapaz é ativista e bem atuante na área, anarquista, estudante da UERJ e compõe o coletivo ADEP (Ação Direta em Educação Popular). No momento da prisão, em que os policiais reviraram a casa dos três SEM MANDATO ALGUM, os canas dentre outras coisas observaram os livros de Renan e uma máscara de gás (pra proteção pessoal em atos) e afirmou que iria levar Renan por ser “black bloc” e que ja o conheciam.

É preciso estarmos atentos e fortes… Renan é só mais um preso político nesse sistema carcerário e judiciário, que se mostra sempre racista e classista. Igual a Renan temos milhões de presos nesses verdadeiros campos de concentração que são as cadeias país afora. Não podemos nos calar diante desse caso pois reforçamos que TODO PRESO É UM PRESO POLÍTICO por aqui.

Assim como existem Renans e Rafaéis Bragas pelo país, os verdadeiros bandidos seguem ilesos em seus gabinetes de empresas ou casas de poder.

Fortalecemos essa corrente e busquemos nos solidarizar sempre e sempre com os nossos.

Liberdade para Renan e seus primos (Diego e Diogo)!

Jan 16

“A fanbase dos partidos” ou “Quem raios é você na sabatina de Paulinha?”

Posted on Tuesday, January 16, 2018 in General

É triste discutir com eleitores da esquerda que tomam as dores de seus candidatos. Esses eleitores são parte do povo e o povo deveria estar unido. Não é contra essa gente que devemos lutar. Devemos lutar justamente para que essa gente não seja mais enganada pelas elites políticas, entre várias outras coisas. (more…)