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Esquerda capitulando ao capitalismo, partido defendendo a polícia e por aí…

Hoje, o jornal El País publicou entrevista com Marcelo Freixo (PSOL) onde ele defende a polícia enquanto classe trabalhadora, celebra a existência do grupo “Policiais Antifascistas” e a presença de policiais no partido. Além disso, revela não gostar quando manifestantes pedem o fim da polícia militar.

No Brasil de hoje, aparentemente o único discurso de esquerda que é levado a sério é uma social democracia que balança entre igualitarismo reformista e desenvolvimentismo. Se qualquer coisa além é visto como utopismo, significa que o que sobra é a capitulação à ordem capitalista. A esquerda brasileira se baseia em integrar todos à economia capitalista e suas relações de produção e serviços, mas isso nem ao menos tem a ver com aquela ideia – já em si problemática – de que é preciso promover o capitalismo para se chegar ao estágio do socialismo. O objetivo da social democracia não ultrapassa o capitalismo, não vislumbra uma mudança de modelo de sociedade. A mudança, para eles, se resume a igualar as oportunidades dentro do sistema que já está posto. Óbvio, um pobre jamais terá as mesmas oportunidades de um rico, então a igualdade é meramente hipotética, enquanto suaviza-se as porradas levadas por conta da desigualdade de patamares.

O discurso do desenvolvimentismo, quando parte de uma perspectiva populista, é o de que quanto mais gente você integra ao proletariado, mais direitos você está garantindo através do aumento do poder de compra. Enquanto eu admito que as pessoas precisam comer, não há aqui um plano de superação das relações de exploração. Não há uma perspectiva de emancipação do trabalhador. Há uma cristalização das relações de dominação entre as classes. Os ricos empresários ficam cada vez mais ricos, já que suas indústrias são expandidas. Obras públicas de vulto consolidam a relação entre a classe empresarial e o estado. A prosperidade da nação então é medida em crescimento da produção e do consumo de mercadorias e a exploração que permite tal crescimento é justificada numa lógica cristã em que o trabalho pelo trabalho enobrece o homem – mesmo que seja o trabalho alienante, embrutecedor e feito para enriquecer patrões e acionistas.

Esse desenvolvimentismo, com sua expansão industrial, construções de usinas, apoio ao latifúndio e destruição do meio ambiente, promove o etnocídio dos povos indígenas e comunidades camponesas, que são levados a integrar a força de trabalho industrial e de serviços em vez de viverem por meios que detêm e em suas próprias culturas. São levados então a inchar ainda mais as favelas nas cidades, onde são oprimidos pelas forças de estado no país com a polícia mais letal do mundo. O território brasileiro, até hoje, abriga várias nações indígenas e também outras comunidades que mantêm identidade cultural própria, mas seus direitos de autodeterminação são largamente ignorados na espectativa de que eles integrem a sociedade nacional dominante, mas essa integração é porca. Indígenas, campesinos e negros são então proletarizados e pauperizados. E, como já foi dito, essa conjuntura social volátil é preservada à base de tiro, porrada e bomba pela polícia.

Embora uma parcela do PT adore arrotar socialismo, suas políticas têm mais afinidade com varguismo e keynesianismo, ambas correntes anti-socialistas.

Já o PSOL não tem a mesma postura, ou melhor dizendo, dentro da colcha de retalhos ideológica que é o partido, com seus diversos grupos, é mais fácil encontrar textos contra o desenvolvimentismo. Porém quando o PSOL, ou uma personalidade importante do partido, defende a polícia enquanto trabalhadores, ele desconsidera que é inerente à polícia ser a defensora da propriedade privada e da ordem social da dominação de classes. Ele aposta numa reforma do sistema de coerção estatal como se o braço opressor pudesse trazer o bem à população. Tudo isso deixa claro que não faz parte dos objetivos da social democracia a mudança do capitalismo para algo sem exploração e dominação de classes, mas uma realização mais homogênea de tal sistema socioeconômico, como se isso fosse realmente desejável. Resta saber como pode ser esquerda algo que pretende realizar plenamente o capitalismo em vez de superar ou destruí-lo. É por isso que muitos se cansam da ideia de que a esquerda pode realmente ser um caminho para a transformação, já que se distanciou tanto daquilo que a originou, ou seja, a luta contra o capitalismo. E a social democracia, por sua vez, tenta deslegitimar qualquer radicalização e a cada dia se torna mais liberal, mais capitalista.

Não é à toa que o discurso igualitarista que visa aumentar a equidade participativa entre os diversos membros da sociedade é uma pauta já tradicional no liberalismo contemporâneo. Se o liberalismo defende que a sociedade é formada pelos acordos entre indivíduos livres e em pé de igualdade, faz sentido que parte dos liberais façam uso desses mesmos princípios adotados pela social democracia — porque tais princípios não visam o fim do capitalismo/liberalismo, mas sua plenitude. Se você souber ler inglês e tiver paciência, aqui tem um texto escrito por Elizabeth S. Anderson, uma filósofa liberal, sobre como outros intelectuais liberais bastante conservadores se apropriaram desse discurso para defenderem a continuidade das relações que possibilitam as opressões.

Agora, tenta você criticar a máquina partidária na presença de um eleitor ou de um membro da base do partido. A sua crítica será encarada como uma ofensa pessoal ou como uma afronta ao time de futebol pelo qual o sujeito torçe. Críticas a partidos não deveriam ser vistas como críticas aos eleitores ou mesmo aos militantes de base que não têm o mínimo poder de decisão dentro do partido que apoia. Essas pessoas são trabalhadoras e estudantes como todos os outros e simplesmente fizeram uma escolha sobre onde depositar suas esperanças. Não são idiotas, apenas tentam sobreviver como todos nós. Mas se você criticar um figurão do partido, sua crítica será internalizada pela pessoa. Se você criticar uma decisão do partido na qual a pessoa nem deu pitaco, essa crítica também será internalizada. Isso empobrece o debate político e faz com que as pessoas troquem os melhores meios para os fins desejados por corporativismo partidário e culto personalista, algumas vezes chegando ao messianismo.

 

-Cris O.

A conexão sinistra do Instituto Mises Brasil

Esta semana, a Newsweek publicou um artigo caracterizando a Antifa como fascista. O grosso do artigo, na verdade, procura mostrar como nazismo e comunismo seriam a mesma coisa. A palavra anarquismo nem chega a aparecer no texto. A lógica que serve de base para o texto é aquela falácia batida da internet que diz que governo grande é esquerda, governo pequeno é direita, logo todo mundo que não é liberal é de esquerda. Então lista-se um monte de características de cunho socialista que foram declaradas na propaganda fascista antes de chegarem ao poder, ignorando o fato do governo nazista ter sido o primeiro na história a executar uma política massiva de privatização e que os fascistas italianos, segundo Donal Sassoon:

“Depois da nomeação de Mussolini como primeiro-ministro, os industriais sentiram-se ainda mais recompensados com a designação de Alberto De Stefani, um intransigente liberal, como ministro das Finanças — para alegria de Luigi Einaudi (membro do Partido Liberal Italiano). De Stefani reduziu impostos, aboliu isenções fiscais que beneficiavam contribuintes de baixa renda, facilitou as transações com ações e a evasão fiscal reintroduzindo o anonimato (abolido por Giolitti), eliminou a regulamentação dos aluguéis, privatizou os seguros de vida (introduzidos por Giolitti) e transferiu a gestão do sistema de telefonia para o setor privado.” (SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do Fascismo. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p. 120)

Mas quem é o autor do artigo, Antony Mueller?

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